

Terça-feira, 7 de Abril de 2009
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Domingo, 22 de Fevereiro de 2009
A entrevista completa, porque isso aqui merece. Marcadores: academia livre, ativismo, metacafé, metareciclagem, radiolivre
Entrevista de Félix Guattari pro curso de jornalismo da PUC-SP, 26 de agosto de 1982.
PUC - Poderia nos dizer alguma coisa sobre a situação das rádios francesas antes da eclosão do fenômeno das rádios livres?
Guattari - Na França, tanto o rádio como a TV estiveram sob a tutela do Estado durante todo o pós-guerra. Aliás, não se pode separar um do outro: a administração do rádio tornou-se subjacente a essa máquina enorme que é o setor de TV -- máquina de produção industrial de mídia. Essa máquina incorpora os partidos que têm uma certa concepção de Estado; incorpora também uma grande quantidade de assalariados.
Não sei dizer exatamente quantas pessoas trabalham no rádio na França, mas só no setor de produção devem trabalhar milhares. Foram esses profissionais que mais se empenharam na defesa do monopólio quando o governo de Giscard quis saber se mantinha ou não a tutela estatal. Na ocasião, o monopólio tinha três emissoras oficiais: a France Antenne, de grande audiência, a Fipa, de música popular, e uma emissora de "alto nível", a France Musique (não estou questionando o "nível", mas a concepção de "alto nível"). Ao lado dessas rádios do monopólio, existiam três rádios periféricas: a RTL, Europe I e Sud-Radio. Na realidade, nem essas são totalmente privadas. A Europe I, por exemplo, é uma sociedade mista na qual o Estado é majoritário.
Nos últimos tempos, e, com a ascensão de Giscard, o peso da rádio e da TV foi se tornando cada vez maior no plano político. Giscard d'Estaing, personagem com características de um narcisismo excepcional, fez um uso sistemático da TV. Isso provocou uma forte resistência, uma onda generalizada de "saco cheio" que possibilitou uma inversão da situação como a que ocorreu nas últimas eleições. O que demonstra que o problema da escalada do poder com o auxílio da mídia não é um fenômeno linear.
Outro fator de questionamento e de transformação do monopólio, que também é muito velho, é a função comercial, publicitária dessas rádios estatais. Até Giscard, não havia publicidade nas rádios do monopólio. A publicidade foi introduzida lentamente na TV estatal, com muitas dificuldades, limitações, controle e toda uma legislação restritiva. A questão da publicidade já vinha sendo há muito tempo trabalhada pelos meios financeiros e comerciais. Durante trinta anos houve uma ofensiva do setor financeiro para impor a publicidade no rádio. Essa ofensiva se tornou um aspecto importante da problemática das rádios livres: os meios publicitários, querendo fazer propaganda nas grandes cadeias de rádio, visavam principalmente as populações locais e setoriais, que lhes dariam o retorno desejado. Quando começou o movimento das rádios livres, a partir de 1977, não percebemos, na nossa ingenuidade, que muita gente que apoiava com o maior dinamismo, no fundo tinha uma perspectiva bem diferente da nossa: queriam se utilizar dessa alavanca par desenvolver suas próprias rádios comerciais.
Um último fator a considerar sobre o estágio anterior ao fenômeno das rádios livres é que, tanto no âmbito da TV, quanto no do rádio (muito mais no da TV), há uma "inchação" burocrática incrível dos órgãos de emissão. Eu poderia citar mil anedotas sobre a maneira pela qual agiam os setores da produção, os técnicos, sobre o peso dos sindicatos e da tecnocracia dentro dessa máquina, que é um verdadeiro monstro burocrático. Monstro que, aliás, só será liquidado quando houver uma mutação.
PUC - Miterrand utilizou as rádios livres antes de ser eleito?
Guattari - Antes de mais nada, faço uma observação a nível da própria expressão: ninguém poderia "se utilizar" das rádios livres, antes da eleições, para fazer campanha, porque elas eram interceptadas, embargadas, fechadas, objetos de perseguição. Eram veículos que, do ponto de vista do conteúdo, não veiculavam coisa alguma. Por outro lado, é verdade também que o tema das rádios livres tornou-se um dos mais importantes da campanha eleitoral de Mitterrand.
No início era apenas uma minoria: o pessoal das rádios livres era um bando de loucos, um pouco como Dom Quixote atacando o grande monopólio. Era espantoso. É como se as pessoas aqui resolvessem agora ir atacar um quartel. Rapidamente, o fenômeno ganhou uma força incrível, produzindo um impacto sobre a grande mídia, como se esse ato de ilegalidade tivesse criado uma rachadura no edifício do monopólio. Parece que, de repente, implantou-se um dúvida sobre a legitimidade desse monopólio. É como se uma vidraça, já trincada, se partisse totalmente sob o impacto de um simples pedregulho.
Esquematicamente, as etapas foram as seguintes: esse pequeno grupo de camaradas, diretamente inspirados pelos italianos (mais que inspirados, pois os materiais italianos eram, basicamente, o que mais se utilizava), viu sua iniciativa estender-se rapidamente por toda a França. Muitas vezes, duas ou três pessoas colocavam os equipamentos em uma cozinha e começavam a emitir. Entre os grupos que se formavam, alguns eram folclóricos e insignificantes. Outros, pelo contrário, eram muito importantes desde o início. Por exemplo, o grupo Fessenheim, na Alsácia, equipou-se com material móvel e começou a emitir em três línguas: o francês, o alemão e a língua local. A repressão nunca conseguiu capturá-los: provavelmente, passavam de uma montanha para outra... Em seguida, apareceram os grupos militantes, não profissionais. Em primeiro lugar vieram os ecologistas e fanáticos do rádio. Depois vieram os militantes de bairros, como os de Saint Denis (subúrbio de Paris), que inventaram um modelo de rádio que imediatamente se tornou muito significativo. Eles estavam ligados a tudo o que se passava no bairo -- onde, aliás, havia muitos trabalhadores imigrantes. As pessoas então vinham pessoalmente na rádio contar o que se passava, denunciar nominalmente seu Fulano ou Dona Sicrana. Eles emitiam dia e noite -- principalmente à noite, porque nesse momento não há concorrência, e a mídia menor se torna maior. Isso desencadeou uma repressão e, ao mesmo tempo, uma reação contra a repressão, uma intensa mobilização por parte de juristas e intelectuais.
Houve então um fenômeno de "bola de neve": quanto mais se reprimia as rádios livres, mais elas se desenvolviam. Enquanto os sindicatos operários eram inteiramente fiéis ao princípio do monopólio, os grupos de seções sindicais começaram a se utilizar das rádios livres, o que provocou desequilíbrios e gerou uma série de conflitos dentro dos sindicatos. Os partidos de oposição ficaram solidários às rádios livres, dizendo: "nós somos favoráveis ao monopólio, mas não queremos repressão sobre as rádios livres". Então nós pedíamos que viessem dizer isso nas nossas rádios livres. Eles vinham, a polícia vinha atrás e os processava. Até Mitterrand teve uns encontrões com a polícia... e todo mundo sabe que Mitterrand é o homem da legalidade! No próprio seio da maioria giscardiana, as contradições se acirravam, porque interesses financeiros consideráveis, assim como interesses políticos locais, também começaram a questionar o monopólio.
Portanto, progressivamente, esse fenômeno, que no início era algo insignificante, fez florecer toda uma série de contradições entre o aparelho esclerosado das rádios estatais e as outras rádios; e, por outro lado, ao nível que eu classificaria como molecular, entre um modelo de escuta previsível e essa coisa que se começava a ouvir e que era mutante.
A rádio livre é uma utilização inteiramente diferente da mídia rádio. Não se trata de fazer como a rádio dominante -- nem melhor, nem na mesma direção, que a rádio dominante. Trata-se de encontrar um outro uso, uma outra relação de escuta, uma forma de feedback e de fazer falar línguas menores. Trata-se ainda de promover um certo tipo de criação que não poderia acontecer em nenhum outro lugar. Por exemplo, na rádio em que eu trabalhei (Rádio Tomate), a gente trazia um grupo de teatro para conversar conosco, só que a gente trazia o grupo inteiro e não apenas o líder. E se nos interessasse, a gente falava durante duas horas ou mais com eles. Não se pode imaginar uma rádio, em moldes comerciais, que suporte isso (um entrevista de duas horas), porque ela depende de um índice de audiência, de uma certa suposição de como os ouvintes vão receber a mensagem. Nas rádios oficiais, as pessoas falam como acham que devem falar para serem ouvidas. Isso não acontece nas rádios livres. Não é raro, aliás, ouvir alguns locutores estatais comentarem espantados: "mas eu falei de uma maneira na Rádio Tomate como eu nunca havia falado antes!"
PUC - Mas não acontecia de as próprias rádios estatais copiarem as rádios livres?
Guattari - Uma vez, na Europe I, começou-se a fazer emissões como a das rádios livres e isso deu o maior pau com o pessoal da televisão.
A Rádio Tomate foi a primeira a colocar no ar imigrantes africanos: eles divulgavam a música de que gostam -- na época, inteiramente desconhecida. Eles tinham ainda um estilo de apresentação muito particular. Agora já se começa a ouvir, nas rádios oficiais, o mesmo tipo de música e o mesmo estilo de apresentação. A diferença é que os camaradas africanos nas ŕadios livres eram indisciplinados, chegavam atrasados, etc., e nas rádios oficiais não podem nem conseguem fazer isso.
PUC - Como se formou o grupo da Rádio Tomate?
Guattari - Imediatamente após a tomada de poder pelos socialistas, um núcleo de intelectuais e juristas do CINEL (Centro de Iniciativa por Novos Espaços de Liberdade) reagrupou elementos das várias rádios livres que existiam desde 1977, incorporou elementos do movimento autônomo e ocupou ilegalmente um local no centro de Paris. Houve então um crescimento extraordinário, porque as pessoas dos bairros, os loulous (malandros, pequenos bandidos) começaram a vir para esse local, e aconteceu uma mistura incrível de gente do bairro com intelectuais, com militantes, etc. Às vezes, apareciam até mesmo mendigos. Um vez, tentei trazer o Ministro da Cultura, Jacques Lang: ele aceitou, mas não quis vir até o local da rádio.
Foi uma experiência extraordinária, às vezes uma violência surpreendente. Havia cenas de conflito, problemas pessoais, às vezes misturados com problemas de droga, faltava dinheiro e por aí vai.
PUC - Como era a repressão antes? Dava prisão?
Guattari - Prisão não dava, mas houve tantos processos que os juízes já estavam de saco cheio. Uma vez, publiquei uma carta no jornal Libération, avisando ao juiz que não iria mais responder às suas convocações. Através do advogado, o juiz disse que eu podia me recusar a atendê-lo, mas precisava que, sobretudo, eu não tornasse pública essa minha desobediência...
PUC - Como era feita a interceptação na época do giscardismo?
Guattari - Havia um sistema eletrônico de balizamento que localizava a emissão e a apagava com um ruído. Mas a gente nunca era inteiramente interceptado. Era só mudar a faixa de onda e pronto! Ou então, se nós nos colocássemos nas proximidades de uma rádio oficial, a interceptação apagava também esta última. De qualquer forma, é um problema muito complicado. Sem falar que a interceptação podia também funcionar como uma informação. Você virava o botão do rádio e ouvia o tempo todo: "censura, censura, censura...".
PUC - As rádios de extrema-direita tiveram algum papel nesse movimento?
Guattari - Na época, nenhum. Agora que há o estatuto das rádios livres, não há mais rádios de extrema-direita, mas rádios de direita: a Rádio Chirac, por exemplo, e várias rádios sionistas, uma delas particularmente reacionária. Mas os grupos fascistas, que eu saiba, nunca ocuparam as radios livres. Uma vez uma rádio abriu espaço para todos: falava quem quisesse, bastava telefonar e podia falar durante dez minutos. Então, os fascistas usaram essa brecha. Na época, isso foi entendido como o nascimento de uma rádio fascista. Imediatamente, as pessoas intervieram para impedir que isso voltasse a acontecer.
PUC - Atualmente, na França, vários grupos reinvindicam uma emissora. Mas chega um momento em que o dial não comporta o número de pedidos. Como está sendo resolvido esse problema?
Guattari - É uma questão complicada. A situação é bem diferente em Paris e no interior. Com exceção das grandes cidades, como Marselha, Lyon, etc., no interior, há possibilidade de satisfazer a todos os pedidos. Em Paris, deve haver aproximadamente uns duzentos pedidos, e as possibilidades são limitadas. O problema é saber qual é o limite. Os socialistas fizeram uma manobra e acabaram por impor uma espécie de compromisso, que consistiu em admitir uma implantação de rádios muito potentes na região parisiense, em vez de aceitar rádios de 5 a 8 km de alcance (o que já é muito para um meio denso e populoso como Paris). Eles partiram da idéia de que 7 ou 8 rádios poderiam ter um raio considerável (uns 30 km) e 10 rádios poderim ter um raio de 15 km, o que já é o suficiente para saturar completamente o espaço da região parisiense. Já um outro enfoque técnico, mais compatível com a espírito das rádios livres, propunha a utilização de frequências privadas, como as do exército e outras, o que permitiria o funcionamento de pelo menos 50 emissoras, cujo alcance seria menor. O importante era conseguir impedir as rádios comerciais e aquelas das grandes organizações e dos jornais que monopolizam a mídia. Com 50 emissoras seria possível um processo de fusão e de associações que abrangeria toda a demanda. No momento, com apenas 15 rádios podendo funcionar, há uma verdadeira guerra nesse setor.
PUC - Está havendo composições? Tendências diferentes conseguem operar numa mesma emissora?
Guattari - Existe uma comissão de tecnocratas e de representantes do movimento que vem se comportando como uma alcoviteira, tentando fazer casamentos forçados. Isso tem dado origem a conflitos intermináveis. A Rádio Tomate, em todo caso, não quis se casar, ou não se casou a tempo e agora está numa fila de espera aguardando decisões.
PUC - Porque as rádios livres só ocupam a FM e não as ondas curtas e médias?
Guattari - Por razões econômicas, principalmente. Você pode montar um equipamento de 300 W, que tem um raio de alcance de 10 km com apenas 10.000 francos. Mas se você quiser passar para as ondas médias, vai precisar de antenas enormes e de uma aparelhagem muito cara.
PUC - E quem vende esses equipamentos?
Guattari - Antes, eles eram importados ilegalmente da Itália. Agora, grande parte é fabricada caseiramente pelos gênios da eletrônica. Durante anos, fomos objeto de uma campanha de denegrimento nessa questão técnica. É preciso conhecer bem o aspecto técnico da coisa porque, se um dia acontecer um movimento de rádios livres no Brasil, esse problema certamente vai surgir. Os técnicos nos diziam: "o que vocês fazem é perigoso. Vocês são uns irresponsáveis. Vocês podem entrar na frequência da rota de aviões, de ambulãncias ou da polícia. Vocês podem desencadear uma catástrofe urbana". Na realidade, nada disso aconteceu. O medo que eles tinham era que se pudesse instaurar um bagunça no plano social, e que esse tipo de rádio tivesse a mesma função que teve na Itália: servir de caixa de ressonância a movimentos políticos muito fortes.
PUC - Pode-se dizer que esse fenômeno já foi recuperado ou enquadrado pelo capitalismo na França?
Guattari - Não pelo capitalismo, mas pelo poder de Estado, pelo poder local, pelos partidos tradicionais, pelos sindicatos. O governo socialista resistiu à entrada do setor financeiro e nessa época houve uma polêmica muito viva, da qual participaram também as forças de esquerda. Uma vez que o governo recusou a entrada da publicidade nas rádios livres, estas se tornaram insignificantes para os interesses privados. O que não os impede, entretanto, de procurar outros caminhos.
PUC - Ao nível da linguagem, o que mudou? O que representou esse movimento de um ponto de vista estético?
Guattari - Sobre o alcance estético sou muito reservado. Tudo depende dos critérios adotados. Se você gosta da música de John Cage, basta girar o botão do rádio para varrer todas as emissoras... Isso produz uma música muito particular...
PUC - Mas não será esse, justamente, o ruído final buscado pelas rádios livres?
Guattari - Num certo sentido sim, porque a coisa consiste em varrer as redundâncias dominantes, uma certa maneira de falar: "boa noite, caros ouvintes da rádio X! Vamos dar início a mais um programa Y...". No plano da linguagem, houve inicialmente um fato contundente: dezenas de línguas começaram a ser faladas na rádio francesa. Só na Rádio Tomate se fala espanhol, italiano, alemão, polonês, basco, bretão, etc. Algumas programações são exclusivamente nessas línguas, outras são bilĩngues. Outra coisa é a maneira de falar essas línguas: as formas de sintaxe, de retórica e de argumentação. Nada disso é feito dentro dos moldes dominantes (o que não quer dizer que as rádios livres não criem seus próprios moldes). Aliás, esta é uma das questões mais interessantes: qual é a maneira específica de falar nas rádios livres?
PUC - Existem dados sobre a quantidade de ouvintes?
Guattari - Já houve algumas sondagens, mas não são muito dignas de crédito. Uma das melhores rádios, a Gay, dedicada ao público homossexual, deve ter de 100 a 150 mil ouvintes, uma audiência não manifestamente homossexual. Segundo algumas sondagens, a Rádio Tomate deve ter cerca de 50 mil ouvintes. Mas o que é mais significativo é que a audiência das rádios estatais caiu em cerca de 50%. Há uma crise terrível nessas rádios. Isso ocorre, principalmente, porque as pessoas não conseguem chegar às rádios estatais, pois são obrigadas a passar pelas rádios livres. Você pensa que está ouvindo uma emissora e de repente entra uma outra no lugar, e isso sem que você tenha tocado no dial. Muitas pessoas hoje reclamam porque querem ouvir música clássica na France Musique e não conseguem sintonizá-la.
PUC - Quais as experiências mais significativas das rádios livres na França?
Guattari - É difícil responder, porque são coisas muito diversas. Há a experiência da Radio 93 no subúrbio de Saint Denis. Nela, as pessoas expunham os seus problemas da vida real. Em geral, eram pessoas entrincheiradas, resistindo contra a polícia nos grandes conjuntos habitacionais. Essas pessoas contavam, por exemplo, que haviam sido presas por não terem pago uma prestação. Uma coisa era ler essas histórias num jornal, mas outra era ouvir diretamente a própria pessoa falando. Houve ainda as experiências com rádios regionais, que foram muito importantes. A experiência da Radio Coeur d'Acier, em Longwy, foi fundamental. O que aconteceu de mais importante nessa rádio, de certa forma foi também o que aconteceu nas fábricas Lip onde se ultrapassaram as direções tradicionais e houve uma experiência de autogestão: ela tornou evidente que os movimentos eram capazes de quebrar a estrutura sindical e seus estereótipos, a ponto de essa rádio (que era ligada à CGT e ao PCF) se tornar, num determinado momento, mais livre que todas as rádios livres da França. Foi um grande problema para a CGT liquidar essa experiência, porque quem estava envolvido nela não era simplesmente um grupelho esquerdista, mas um movimento social dos mais amplos.
Eu gostaria de inverter um pouco a nossa relação para que vocês falem das rádios livres no Brasil, hoje. Discuti essa questão em Campinas, com gente próxima ao PT, e eles me disseram que uma rádio livre aqui não seria simplesmente interceptada: ela poderia dar cadeia. Pergunto: se o Lula criar uma Rádio dos Trabalhadores, isso provocaria repressão?
PUC - Seguramente. No mínimo, a rádio seria fechada. O problema aqui é que a interceptação não é técnica, como na França, mas policial. Haveria personalização das pessoas envolvidas. Por outro lado, é preciso considerar que uma rádio de um partido organizado como o PT poderia ter o respaldo de movimentos populares bastante amplos, o que daria imediatamente uma dimensão política de proporções nacionais às eventuais prisões. Em todo caso, uma rádio dessa natureza só poderia surgir no bojo de uma luta política, em que a relação de forças nos fosse favorável.
Guattari - Eu vou fazer uma observação que poderá ser mal interpretada, vinda de um francês apenas de passagem por aqui. Parece-me que num grande país e numa grande potência industrial, como é o Brasil, essa problemática em algum momento deveria emergir. Não consigo ver como é possível que não se coloque aqui o problema da nova mídia, nem que seja só para formação da força coletiva de trabalho. Num país que vem conhecendo uma repressão bastante forte, como é o caso da Polônia, existem rádios livres, e elas desempenham um papel considerável na resistência ao regime. Estive recentemente na Polônia e fui informado de que grande parte dos esforços da polícia estavam concentrados em fazer cessar as emissões clandestinas. Além disso, é preciso começar a refletir também sobre o papel das rádios livres no próprio seio das organizações democráticas.
PUC - Os problemas para uma eclosão de rádios livres no Brasil não são apenas de natureza policial. Há também uma resistência interna imensa dentro dos próprios grupos de esquerda. Seus programas simplesmente ignoram a questão da mídia, e não apontam alternativas para resistir ao seu poder. Por outro lado, as pessoas que se preocupam com esses problems não estão diretamente vinculadas a movimentos políticos e, portanto, não têm perspectivas políticas próprias.
Guattari - Esse problema também ocorreu na França. Os grupos militantes trotkistas, maoístas e esquerdistas de toda natureza foram os últimos a encarar as possibilidades abertas pelas rádios livres. Porém essa situação pode ser mudada, e muito rapidamente. Se formos esperar que grupos militantes tradicionais tomem consciência desse problema para se mobilizar, corremos o risco de esperar por muito tempo. Frequentemente, quem faz a transgressão são indivíduos isolados, "loucos" mesmo. Uma das maneiras de encarar esse problema na França foi considerar que era necessário de início preparar cuidadosamente um dispositivo de emissão, e só colocá-lo em funcionamento em ocasiões muito especiais. Por exemplo: por ocasião de uma greve com ocupação, se uma rádio livre transmite o que está ocorrendo, isso obriga as forças policiais a investir um espaço social muito mais amplo do que o da fábrica em questão, o que agrava o problema. Ou então, por ocasião de algum acontecimento específico, a intervenção pontual de uma rádio livre introduz uma informação diferente, que poderá ser imediatamente retomada pela grande mídia. É exatamente para poder intervir no momento conveniente que é preciso fazer a preparação técnica do equipamento com antecedência. Caso contrário, quando a ocasião favorável se apresenta, em geral não temos mais tempo de realizar as condições técnicas.
PUC - Sem dúvida essa questão terá de ser enfrentada com maior ousadia pelos brasileiros. Em todo o caso, a discussão já começou.
Para terminar, você poderia nos dizer algo sobre as rádios livres na Polônia?
Guattari - Trata-se de emissões da direção clandestina da Solidariedade. Elas são bem curtas, registradas em k7 e são emitidas sem a presença dos militantes, correndo o risco de apreensão do material. Houve há algumas prisões, que começaram com a de um belga que levava material para lá. Uma rede que trabalhava para a Solidariedade caiu, mas oito dias depois as transmissões já tinham recomeçado. Seu conteúdo consiste principalmente em orientações do movimento Solidariedade. Entre elas, por exemplo, a denúncia de revistas e panfletos que o governo polonês publica em nome do Solidariedade. A rádio funciona como garantia de autenticidade das declarações do movimento. Felizmente, o governo ainda não teve a idéia de fazer falsas emissões da Rádio Solidariedade. Além disso, é muito importante para a população ouvir a voz dos dirigentes...
Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008
Marcadores: cidades invisíveis, micropolíticaAo chegar a Fílide, tem-se o prazer de observar quantas pontes diferentes entre si atravessam os canais: pontes arqueadas, cobertas, sobre pilares, sobre barcos, suspensas, com os parapeitos perfurados; quantas variedades de janelas apresentam-se diante duas ruas: bífores, mouriscas, lanceoladas, ogivais, com meias-luas e florões sobrepostos; quantas espécies de pavimento cobrem o chão: de pedregulhos, de lajotas, de saibro, de pastilhas brancas e azuis. Em todos os pontos, a cidade oferece surpresas para os olhos: um cesto de alcaparras que surge na muralha da fortaleza, as estátuas de três rainhas numa mísula, uma cúpula em forma de cebola com três pequenas cebolas introduzidas em sua extremidade. "Feliz é aquele que todos os dias tem Fílide ao alcance dos olhos e nunca acaba de ver as coisas que ela contém", exclama-se, triste por ter de deixar a cidade depois de tê-la olhado apenas de relance.
Sucede, no entanto, de permanecer em Fílide e passar ali o resto dos dias. A cidade logo se desbota, apagam-se os florões, as estátuas sobre as mísulas, as cúpulas. Como todos os habitantes de Fílide, anda-se por linhas em ziguezague de uma rua para a outra, distingue-se entre zonas de sol e zonas de sombra, uma porta aqui, uma escada ali, um banco para apoiar o cesto, uma valeta onde tropeça quem não toma cuidado. Todo o resto da cidade é invisível. Fílide é um espaço em que os percursos são traçados entre pontos suspensos no vazio, o caminho mais curto para alcançar a tenda daquele comerciante evitando o guichê daquele credor. Os passos seguem não o que se encontra fora do alcance dos olhos mas dentro, sepultado e cancelado: se entre dois pórticos um continua a parecer mais alegre é porque trinta anos atrás ali passava uma moça de largas mangas bordadas, ou então é apenas porque a uma certa hora do dia recebe uma luz como a daquele pórtico de cuja localização não se recorda mais.
Milhões de olhos erguem-se diante de janelas pontes alcaparras e é como se examinassem uma página em branco. Muitas são as cidades como Fílide que evitam os olhares, exceto quando pegas de surpresa.
- ítalo calvino, As cidades invisíveis.
Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
Marcadores: academia livreReanimando os atenienses depois de um segundo ano de guerra contra os espartanos, o segundo ano da guerra do Peloponeso, Péricles advertiu seus compatriotas de que encontravam-se em risco não apenas de perder o império, mas de sofrer as "animosidades incorridas durante seu exercício". "Porque o que vocês exercem", revelou-lhes, "é, para falar sem rebuços, uma tirania. Talvez tenha sido errado estabelecê-la, mas agora seria perigoso abrir mão dela". A tirania no exterior foi a obra da primeira e (diriam alguns) maior democracia da história. Mas, afinal, o mesmo tipo de contradição entre liberdade e sujeição habitava a política interna ateniense, em que aos imigrantes, aos escravos e seus descendentes, bem como às mulheres, eram negados muitos dos privilégios democráticos usufruídos pela minoria da população, os cidadãos plenos, homens.
Os atenienses desenvolveram um tipo peculiar de império -- distintivamente disposto a fazer fermentar uma mistura volátil de atração e humilhação na população por ele dominada. Ele não era como o império colonial europeu dos tempos modernos, que impunha fisicamente seu próprio Estado a outros territórios e sociedades. Obtidos por invasão e mantidos por ocupação, tais Estados imperiais eram de fato soberanos sobre os povos sujeitados, governando-os com todos os meios necessários de administração, regulação e compulsão. Mas o império ateniense consistia em uma dominação sem administração. De várias maneiras, tratava-se de um império de signos -- signos de poder: magnificentes, draconianos, ou ambas as coisas simultaneamente -- que reduzia outros Estados, mais ou menos voluntariamente, à submissão, talvez para a própria vantagem e proteção destes, mas certamente sob pena de destruição. Atenas não exercia seu governo sobre outros diretamente, mas, em toda parte, podia intervir na política local, muitas vezes pela força ou por demonstrações de força, para criar democracias fantoche feitas à sua imagem e a ela obedientes. O imperialismo como missão democrática. Muitas das cidades sob tributo eram nominalmente "aliadas", culturalmente ligadas a Atenas por uma herança comum (como os gregos da Jônia), e politicamente jungidas em uma Liga na qual ela era o hegemon. Controlando as rotas marítimas e os recursos do comércio, o império era condição política do grande empreendimento comercial que fez de Atenas a mais rica e populosa cidade-estado do mundo helênico. Em troca, a riqueza que os atenienses drenavam do império foi destinada às exibições de alta cultura e força bruta pelas quais eles o mantinham sob controle.
O maravilhoso e o criminoso: um império de dominação sem administração opera em grande parte por meio de efeitos de demonstração de seu poder. Por outro lado, Atenas era um espetáculo de cultura que funcionava -- para adotar uma forma hobbesiana de governança -- "para mantê-los todos em assombro". Tal era a política dessa glória que foi a Grécia: a magnificência de sua arquitetura e arte, o brilho de seu teatro, suas procissões e cerimônias esplandecentes, a Academia e a Ágora, o ginásio e o simpósio: "Nossa cidade", vangloriava-se Isócrates, "é uma festa para os que vêm visitá-la". Cidades súditas, notadamente, visitavam-na, com com seus tributos anuais, por ocasião do principal festival, as Dionisíacas, que era também a alta temporada teatral. Mesmo aqueles que nunca tinham visto Atenas podiam conhecer sua superioridade pela reputação de seus escritores e filósofos, de seus políticos e de seus atletas. Quase inevitavelmente, então, seu maior inimigo, a oligárquica Esparta, viria opor-se a ela por meio de uma estratégia de negação cultural: adotando um fundamentalismo material e um moralismo puritano que recusava os valores que Atenas entendia como civilização. Uma mera coleção de aldeias antiquadas, Esparta, comentou Tucídides, não poderia deixar consignada sua fama nos parcos restos que legaria à posteridade; ao passo que as ruínas de Atenas fariam, por muito tempo, seu poder parecer o dobro do que efetivamente fora. Por outro lado, os que não se maravilhavam com a glória ateniense, que não admitiam sua superioridade ou se revoltavam contra ela, sentiriam o peso de sua espada -- outra vez, a título de demonstração.
No império dos signos, a força é também um signo de força, talvez o mais efetivo, senão sempre o mais econômico, que almeja induzir o medo e a obediência de muitos fazendo de poucos um exemplo brutal. Assim argumentava o belicoso Cleonte, chamando os atenienses a responder à revolta da cidade aliada de Mitilene com o extermínio de seus cidadãos. "Punam-nos como merecem", ele disse, "e ensinem a nossos aliados por meio de um exemplo inolvidável que a pena para a rebelião é a morte". Neste caso particular, o contra-argumento (apelando ao mesmo efeito exemplar) de que seria pouco sábio matar pessoas comuns, inocentes, e que eram em toda parte os naturais aliados democráticos de Atenas, limitou o massacre aos mil e tantos aristocratas de Mitilene considerados responsáveis. Mas, no famoso caso de Melos, uma colônia espartana que se recusava a submeter-se aos atenienses, oferecendo em lugar disso a se manter neutra e amigável, o resultado foi bem menos afortunado. Sua amizade, disseram-lhes os atenienses, seria apenas "para nossos súditos um argumento de nossa fraqueza". Corria o décimo sexto ano da guerra do Peloponeso, tendo passado um bom tempo desde a revolta de Mitilene, e as demonstrações do poderio e decisão de Atenas vinham adquirindo um valor estratégico cada vez maior. Agora, portanto, ao dar um ultimato a Melos, os atenienses estavam efetivamente dizendo: ou vocês estão conosco, ou estão contra nós. Se os Estados mantêm sua independência, significa que são fortes, e se "não os molestamos é porque temos receio; assim, além de estender nosso império, aumentamos nossa segurança por meio de sua sujeição". Contando com a justiça de sua causa e com a fútil esperança de que os espartanos ou os deuses a salvariam, Melos recusou-se a render-se, e foi destruída. Todos os homens foram mortos; todas as mulheres e crianças, vendidas como escravas. Não que eles não houvessem sido avisados da vontade de poder de Atenas. "Acreditamos, quanto aos deuses", disseram-lhe os atenienses, "e quanto aos homens, sabemos que eles, por uma lei necessária de sua natureza, exercem seu domínio sempre que possível."
Assim movidos por um desejo de mais e mais poder, os atenienses, no final, ultrapassaram a si mesmos, e perderam tudo. Tinham chegado ao ponto em que, aparentemente, se não se expandissem, entrariam em colapso. "Não podemos fixar o limite exato em que deve se deter nosso império; alcançamos uma posição na qual não podemos contentar-nos com o que temos, mas precisamos planejar como estendê-lo, pois se cessamos de dominar outros, nos arriscamos a sermos nós mesmos dominados." Assim falou Alcebíades, obtendo a aprovação da assembléia ateniense para a grandiosa campanha siciliana, que acabou em um desastre completo, e colocou o império no rumo do declínio e da derrota. Mas, já no começo, cinquenta anos antes da guerra do Peloponeso, quando os atenienses, ao vencer a ameaça persa, descobriram seu próprio destino como poder marítimo, eles tinham posto em movimento uma geopolítica de expansão que era quase uma fórmula para a perda de controle. O domínio crescente dos mares implicava o desenvolvimento do poderio comercial que proveria o dinheiro, o material e os recursos humanos necessários; assim como, inversamente, o comércio crescente implicava o desenvolvimento do poderio marítimo necessário para garantí-lo. A Atenas democrática tornou-se um poder predador. E no entanto sua população e negócios florescentes logo tornaram-na dependente de importações críticas de energia buscada em terras bárbaras (i.e., não-gregas) situadas nos limites de sua força militar: os ricos grãos da Sicília, Egito, e Criméia distantes. Situada no centro de uma esfera de dominação que se expandia em tantas direções, os interesses, custos e perigos atenienses estavam todos sujeitos a uma multiplicação geográfica da ordem do quadrado do raio de uma circunferência em expansão multiplicada por 3,14159. Para enfrentar suas dificuldades, os atenienses podiam pressionar seus confrades gregos, convertendo aliados em pagadores de tributo, ou encontrar novas terras bárbaras para conquistar. Em qualquer dos casos, o império que produzia o bem-estar em sua terra natal espalhava humilhação e ressentimento no exterior. Presa no clico vicioso de expansão e repressão, Atenas podia ser em geral detestada na mesma medida em que se tornava gloriosa e admirada.
A guerra do Peloponeso foi um testemunho desse ciclo de dominação e resistência -- ciclo que, ao fim e ao cabo, ela exacerbou grandemente. Em oposição aos incidentes que desencadearam a guerra, a "causa mais verdadeira" desta última, como disse Tucídides em uma passagem célebre, "foi o poder crescente dos atenienses e o temor que isso inspirava nos espartanos". Se a guerra então exigiu dos atenienses que explorassem aidna mais seu "poder crescente", também ofereceu a seus súditos novas possibilidades de revolta e libertação (espartana). A advertência de Cleonte aos atenienses, no quinto ano do conflito, foi ainda mais forte que a de Péricles: "seu império é um despotismo e seus súditos, conspiradores descontentes" -- e os eventos não o desmentiriam. No fim da guerra, quando os espartanos, liderados por Lisandro, aproxiavam-se de sua cidade cercada e faminta, os atenienses, como disse Xenofontes, choravam por sua derrota e mais ainda por seu destino, pois temiam ser tratados da forma como haviam tratado tantos outros povos. Toda a Grécia regozijou-se ao ver Atenas cair e os que os atenienses haviam expulso de suas próprias cidades agora retornar a elas.
Tucídides conta-nos que não decidiu escrever uma história apenas para agradar o público imediato. Ele ousava esperar que seu relato da guerra do Peloponeso pudesse "durar para sempre" -- já que histórias humanas desse tipo com certeza aconteceriam outra vez. Ele ficaria pois satisfeito, disse, "se essas minhas palavras forem julgadas úteis por aqueles que desejam compreender claramente os eventos que ocorreram no passado e que, no curso das coisas humanas, serão, um dia ou outro e de modo muto semelhantes, repetidos no futuro".
- marshall sahlins, Esperando foucault, ainda.
Marcadores: academia livre, micropolíticaNesse mesmo sentido, em um século crescentemente marcado pela indigenização da modernidade, o projeto de Max Weber de comparar as possibilidades abertas ao desenvolvimento capitalista por diferentes ideologias religiosas parece cada vez mais bizarro. Não que seja bizarro falar em organização cosmológica da ação prática, com certeza uma das grandes idéias de Weber. O que parece cada vez mais curioso é o modo como os weberianos se fixaram na questão de por que tal ou qual sociedade teria falhado em desenvolver este summum bonum da história humana, o capitalismo -- tal como conhecido e amado pelos ocidentais. Em 1988, quando eu estava na China, esse tópico andava criando um certo confucionismo. Escutei um sinólogo americano observar que, durante a dinastia Qing, a China chegara "ah, tão perto" de uma decolagem para o capitalismo. Mas tudo isso é equivalente a indagar porque os povos das terras altas da Nova Guiné não desenvolveram os espetaculares potlatch dos Kwakiutl. Eis uma pergunta que poderia bem ser feita por um cientista social kwakiutl, já que, afinal, com suas complexas cerimônias interclânicas de troca de porcos, os melanésios chegaram bem perto. Mais perto do alvo -- ou, talvez, exatamente na mosca -- acertava a questão dos missionários cristãos sobre como podiam os fijianos, em seu estado natural, deixar de reconhecer o verdadeiro deus. Poderíamos igualmente perguntar por que os cristãos europeus não desenvolveram o canibalismo ritual dos fijianos. Afinal, eles chegaram tão perto.
- marshall sahlins, Esperando foucault, ainda.
Marcadores: academia livre, micropolíticaPorque os ocidentais bem intencionados andam tão temerosos de que a abertura de um Colonel Sanders em Pequim signifique o fim da cultura chinesa -- uma fatal americanização? Temos tido restaurantes chineses na América por mais de um século, e isso não nos tornou chineses. Pelo contrário, obrigamos os chineses a inventar o chop suey. O que poderia ser mais americano que isso? French fries?
- marshall sahlins, Esperando foucault, ainda.
Marcadores: academia livre, micropolíticaUm povo que concebe a vida exclusivamente como busca da felicidade só pode ser cronicamente infeliz.
com a queda de Adão (Smith), fomos todos ao chão
O castigo foi o crime. Ao desobedecer a Deus para satisfazer seus próprios desejos, ao colocar este amor demasiado a si mesmo acima do amor suficiente a Ele, o homem condenou-se a se tornar escravo de seus próprios anelos carnais insaciáveis: uma criatura limitada e ignorante, abandonada em um mundo meramente material e intratável, para ali labutar, sofrer e por fim morrer. Feito de "cardos e espinhos", resistente a nossos esforços, o mundo, disse Santo Agostinho, "não cumpre o que promete: é um mentiroso, e trapaceia". A trapaça consiste na impossibilidade de aplacar nossos desejos libidinosos de bens terrenos, de dominação e de prazer carnal. O homem, portanto, está fadado a "perseguir uma coisa após outra, e nada permanece para sempre com ele [...]. Suas necessidades multiplicam-se a tal ponto que ele não consegue encontrar a única coisa de que precisa, uma natureza simples e imutável".
Mas Deus foi clemente. Deu-nos a Economia. Advinda a época de Adão Smith, a miséria humana havia-se transformado na ciência positiva de como nos havermos com nossas eternas insuficiências: como extrair a máxima satisfação possível utilizando meios sempre aquém de nossas necessidades. Tratava-se da mesma antropologia judaico-cristã, só que aburguesada, isto é, dotada de expectativas algo mais animadoras a respeito das oportunidades de investimento propiciadas pelo sofrimento humano. Em um famoso ensaio que delineava o campo desta ciência, Lionel Robbins reconheceu explicitamente que a gênese da Economia era a economia do Gênesis: "Fomos expulsos do Paraíso", escreveu ele, "não temos nem a vida eterna nem meios ilimitados de gratificação" -- em seu lugar, apenas uma vida de escassez, onde escolhar uma coisa boa é privar-se de outra. A verdadeira razão pela qual a Economia é a 'ciência desoladora' é que ela é a ciência da condição humana depois da Queda. E o Homem Econômico que habita a primeira página de (quaisquer) Princípios Gerais de Economia não é outro senão -- Adão.
- marshall sahlins, Esperando foucault, ainda.
Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008
Muita gente não sabe das manifestações que aconteceram em Seattle, nos Estados Unidos, no ano de 1999 na ocasião de um encontro da Organização Mundial de Comércio. Marcadores: academia livre, micropolítica
Fizeram um site para que as pessoas quep articiparam pudessem contar a história: por si mesmas.
http://www.realbattleinseattle.org/
Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008
Carta que recebi, dia desses, de um morador do bairro: Marcadores: aliadosAmigos,
Como todos sabem, está em processo de eleição a escolha da nova proposta de ocupação do Mercado de Sta Tereza!
Três propostas estão concorrendo na votação aberta pela prefeitura. Sinceramente, me oponho ao processo "democrático", acionado pelo poder público, para escolha do futuro mercado. Acredito que o poder de decisão poderia ser dado àqueles que lutaram pela preservação do mesmo: os moradores do bairro!
Entre as propostas, uma foi elaborada pelos moradores, em reuniões promovidas pela associação e outras entidades. É o Marcado Mineiro, que prevê a revitalização do mercado enquanto mercado (e acho esse um ponto importantíssimo! ) com a integração dos comerciantes que fizeram parte da história daquele espaço e, complementando o projeto, a criação de uma incubadora de artes, uma escola de gastronomia e um centro de referência e comércio de artesanato.
Os outros dois projetos são encabeçados por já conhecidos e reconhecidos grupos culturais da cidade e produtoras. Não quero me deter criticando os mesmos ou suas propostas. Mas terei de me posicionar contra eles. Ambos os projetos vêem na ocupação do mercado uma oportunidade de constituírem um espaço permanente para suas realizações. Ou seja, de uma forma um espaço público estará sendo ocupado por entidades privadas. Se me entendem. Sei que a produção cultural desses grupos é de grande amplitude, mas na realidade o espaço do mercado se transformará na sede do Grupo Galpão ou do Tambor Mineiro, no Museu e ateliê do Giramundo, ou no escritório de uma agência de publicidade ou de uma ONG ambiental!
A de se dizer que esta disputa é tbem desigual, tendo em vista o peso que o nome dos grupos agrega e os recursos financeiros que dispõem.
Defendo mesmo a proposta "nativa". Não só como morador, mas, acima de tudo, por considerá-la a mais legitima! Quando do processo de luta pelo mercado foram os moradores que se mobilizaram, entraram na justiça, organizaram um plebiscito e impediram a ocupação pela polícia! Nenhum desses grupos se manifestou na época nem pró, nem contra a iniciativa.
Ponderando tbem uma preocupação dos moradores do bairro que é a do impacto ambiental que tais propostas podem trazer ao bairro. Um movimento intenso de veículos e pessoas que o bairro não comporta!
O site da proposta do bairro é esse: www.votosantatereza .com.br
Peço, pois, que pensem bem no momento de votar e apoiem o Mercado Mineiro!
Obrigado e um forte abraço!!! E ajudem a divulgar!!!
rafa
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Momento "pelego". O Mercado Santa Tereza, tradicional em Belo Horizonte, quase foi transformado em: aquário de shows aquáticos; sede da guarda municipal; monastério gay; plataforma de lançamento de foguetes obsoletos.
Embora a idéia do monastério gay tenha sido até divertida, o pessoal do bairro se organizou pra impedir o público bacanal e resolveram intervir, conseguindo por fim uma eleição virtual para escolher, entre 3 propostas, a que será implantada no espaço.
Eu divulgo a segunda, porque foi a proposta apresentada pelo próprio pessoal do bairro, que correu atrás dessa pequena grande vitória. Estão disputando o primeiro lugar com o terceiro projeto, megalomaníaco demais pra ser confiável. Aliás, estão divulgando essa terceira proposta com cartazes aqui na faculdade, que fica bastante distante do bairro. Me parece eleição, onde ganha quem tem dinheiro pra sair mais bonito na foto...
Ah, e vale o comentário que o pessoal da Associação fez no site pra orientar o voto de quem apóia a proposta.ATENÇÃO:
Um dos concorrentes tem um nome parecido DEMAIS com o nosso, por isso, assegure-se de que está votando na alternativa correta.
Pra ver a segunda proposta.
Pra votar.
Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008
Estado mínimo. -- Corruptela neoliberal, ou seja, uma gíria do termo original: Estado de direitos mínimos. Marcadores: academia livre, micropolítica
Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008
Marcadores: academia livre
Marcadores: academia livre, micropolíticaAo estudarmos a arte japonesa, veremos então um homem incontestavelmente sábio, filósofo e inteligente, que passa seu tempo como? Estudando a distância da Terra à Lua? Não. Estudando a política de Bismarck? Não. Apenas estudando um talo de capim.
- vincent van gogh, Cartas a théo.
Terça-feira, 11 de Novembro de 2008
Marcadores: metareciclagem
Conheçam o Metareciclagem.
Marcadores: academia livre, metacafé, micropolíticaA conclusão, portanto, em boa lógica, só poderia ser uma, Marta e Marçal iam deixar o Centro. Se o fizerem, será um disparate, dizia Cipriano Algor, de que é que vão viver depois, Essa mesma pergunta se nos poderia fazer a nós, disse Isaura, e nem por isso me vês preocupada, Acreditas na divina providência que vela pelos desvalidos, Não, o que creio é que há ocasiões na vida em que devemos deixar-nos levar pela corrente do que acontece, como se as forças para lhe resistir nos faltassem, mas de súbito percebemos que o rio se pôs a nosso favor, ninguém mais deu por isso, só nós, quem olha julgará que estamos a ponto de naufragar, e nunca a nossa navegação foi tão firme, Oxalá que a ocasião em que nos encontramos seja uma dessas.
- josé saramago, A caverna.
Marcadores: academia livre, aliados, metacafé, metareciclagem, micropolíticaO JOGO já começou e novos JOGADORES podem entrar a qualquer instante.
O JOGO não é competitivo.
Todas as regras podem mudar.
O processo coletivo define a regra.
Que coisa mais linda.
Tire do EIA - Experiência Imersiva Ambiental. Um evento que parece interessante.














